Não sou Macabéa,
mas poderia ser.
Peço licença para introduzir esse texto com as palavras de Rodrigo S.M, narrador de “a hora da estrela”. Ele estava certo quando disse “que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”. Assim como com ele, as palavras agora saem de mim trabalhosamente, carregam uma dose de irritação, um desconforto conhecido apenas por aqueles que veem na escrita algo que transcende o próprio ato de escrever. Clarice, por meio de Rodrigo, diz escrever por não ter nada a fazer no mundo. Diz:
“Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias”
Para não morrer, Rodrigo, ou melhor dizendo, Clarice, resolve gritar a história da nordestina Macabéa no papel. Digo grito, porque a narrativa é um ensurdecedor grito. Grito de qual espécie? De cansaço, desespero, denúncia, “grito puro e sem pedir esmola”.
Há muito pretendia ler a obra de Clarice, sabia muita coisa sobre a narrativa, mas só saber não basta. É preciso se enfiar no livro. “A hora da estrela” é um mergulho catártico. Ao longo da leitura, fui sendo espremida pelas palavras. Enquanto Rodrigo me apresentava a jovem nordestina, fui gradualmente me tornando íntima de Maca (apelido que pode ser usado apenas por amigos próximos). Me senti íntima de sua dor, da fome, da tristeza, da felicidade alienada, da ignorância, da ingenuidade que a anestesiava das feridas de uma realidade pobre e sofrida.
Macabéa é uma personagem nua. Um paradoxo entre o superficial e o profundo.
Senti um enorme afeto por ela, uma necessidade incomoda de me fazer amiga de alguém que nem existe de fato. Abraçá-la e apresentar amor a quem só conheceu indiferença e aprendeu a se conformar com a solidão em seu estado mais bruto. Órfã, criada por uma tia desagradável, sem amigos, com um namorado que não gostava dela de verdade, Maca me fez refletir sobre a necessidade que o ser humano tem de amar e ser amado. Somos criados para o amor. O Amor dá sentido à existência. Lygia Fagundes Telles traduz isso de modo a tocar a alma em um trecho de seu conto “os objetos”:
“Veja, Lorena, veja…Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso…Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? “
Macabéa é pessoa, sem amor.
Ao longo da narrativa, a personagem de Clarice se alimenta de si mesma, experimenta a cruel dose da solidão. Até o Divino para ela é distante. Para Macabéa, Deus era dos outros, não dela. Era um ser abstrato, que escutava suas preces de vez em quando, em um momento de sorte. No entanto, não apenas Deus era abstrato para Macabéa, a própria era abstrata para si. Na verdade, a realidade era uma incógnita para a nordestina. Em determinado ponto do livro, em um diálogo com o namorado Olímpico, a garota afirma não achar que é gente. Isso é violento, bárbaro, de uma brutalidade descomunal. O direito a humanidade foi negado a Macabéa e, o que é simplesmente humano, para ela é luxo.
Ter futuro é luxo. Tristeza é luxo. Sonhar é luxo. Esperança também é. Isso é triste.
Por alguns instantes pensei, e ainda penso, que eu não sou Macabéa, mas poderia ser. Cresci cercada de amor, recebi educação, tenho amigos, creio em Deus, mas e se fosse diferente?
Clarice, em “a hora da estrela”, me vestiu de Macabéa. A nordestina grudou em minha pele. Quando terminei o livro dentro do carro esperando minha mãe sair do trabalho, e devolvi as roupas a Clarice, percebi que já era tarde, não dava mais para me livrar dela completamente. Agora ela não some! A narrativa inunda mesmo aquele que não é nem de perto Macabéa.
Macabéa se faz espelho, pois é gente, por mais que não se reconheça como tal.
O fim de Macabéa é apoteótico ao contrário. Sua hora da estrela é triste, ela não vira artista de cinema como tanto queria, nem se casa e tem uma vida feliz e digna. Aquela que nunca teve fala, acaba eternamente muda. Mais uma vez repito: brutal!
“A hora da estrela” ficará marcado em mim para sempre. Já perdi as contas de quantas vezes, após ter lido, revisitei minhas marcações e anotações, e depois fiquei olhando para a parede tentando digerir tudo. Tarefa difícil! Mas, por incrível que pareça a tragédia de Macabéa ecoa verde, uma estranha esperança de que apesar dos pesares, ainda é tempo de morangos.
Obrigada por ler até aqui!
Com muito amor,
Vitoria Gemima!


lembro quando terminei A Hora da Estrela, e fechei o livro chorando. Clarice marca a gente demais com essa personagem.
belíssimo texto, Vi!
"e não esquecer que ainda é tempo de morangos"
Clarice por vezes nos tira o fôlego, é verdade.
O seu texto me fez lembrar de uma verdade antiga: algo precisa ser amado para que possa amar. Quando você escreve que “somos criados para o amor”, me vem a mente 1 João, quando o apóstolo nos diz que Deus é amor. Se Ele é amor, então fomos criados para Ele mesmo — para amar e sermos amados n’Ele.
Quando você aponta que Deus é “dos outros” e não dela, isso revela não apenas a fragilidade da identidade de Macabéa, mas também algo mais profundo: o drama humano. O quanto nos afastamos da Fonte e, nesse afastamento, nos tornamos pequenos, egoístas, desorientados. Há ali uma pobreza que não é só social, mas ontológica.
Seu texto ficou delicado e profundo, Vi.